Governo brasileiro precisa disputar política interna dos EUA, diz professor da USP

Em meio à escalada tarifária imposta pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, o professor Feliciano de Sá Guimarães, da Universidade de São Paulo (USP), alerta para um erro estratégico crônico do Brasil: ignorar a dinâmica da política interna americana nas negociações bilaterais.

Segundo o especialista, a resposta técnica e diplomática do Itamaraty e do Ministério da Fazenda tem sido insuficiente diante da realidade altamente politizada do Congresso e da Casa Branca. “Negociações como essas não são resolvidas apenas com argumentos econômicos. É preciso atuar politicamente dentro dos EUA, inclusive com canais abertos junto à ala conservadora do Partido Republicano”, afirmou à CNN Brasil.

Feliciano ressalta que o Brasil negligencia sistematicamente esse diálogo e, por isso, fica vulnerável a decisões unilaterais, como o tarifão de 50% anunciado por Trump sobre diversos produtos nacionais. “Uma tarifa como essa praticamente inviabiliza o comércio com os EUA. É, na prática, um embargo econômico.”

O professor aponta ainda que missões parlamentares brasileiras — como a recente comitiva de senadores enviada a Washington — são passos iniciais válidos, mas ainda tímidos. Para ele, o país precisa estabelecer uma presença constante, estratégica e apartidária nos EUA, com interlocução direta junto a congressistas republicanos, think tanks conservadores e formadores de opinião em áreas como segurança e comércio exterior.


Análise Wordingview:

A fala do professor Feliciano revela uma falha estrutural na política externa brasileira: a crença de que técnica e diplomacia bastam num mundo onde o comércio é usado como arma política.

Os EUA operam sua política comercial por meio de pressão interna, lobbies e narrativas políticas, não apenas via acordos formais. Ignorar isso é como tentar jogar xadrez enquanto o adversário joga pôquer.

Enquanto o Brasil tenta se posicionar como “parceiro confiável”, Washington responde com tarifas punitivas e omissão diplomática. O recado é claro: ou o Brasil entra no jogo político da narrativa americana — disputando espaço nos bastidores da política interna deles — ou continuará sendo alvo fácil de retaliações.

A diplomacia brasileira precisa ser mais do que cerimonial; ela precisa ser tática, proativa e politicamente consciente do terreno em que pisa.

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